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O Curandeiro da Vila de Porto Feliz

Atualizado: 10 de abr.

Na década de 1950 o historiador ituano Francisco Nardy Filho publicou no jornal O Estado de S. Paulo uma das suas mais curiosas e preciosas crônicas sobre Porto Feliz. Com o estilo redacional característico que atraía o interesse dos mais desatentos dos leitores, Nardy escreveu sobre um curandeiro africano que se tornou muito popular por seus conhecimentos medicinais.


Diz o historiador que na segunda metade do século dezenove havia na Vila de Porto Feliz um curandeiro famoso — o negro africano Cândido —, escravo de Cândido José da Motta. Era mesmo famoso esse tal curandeiro que, com suas maravilhosas curas, deixava atônitos os senhores médicos da Vila de Porto Feliz, bem como os de Itu e das vilas vizinhas.


Doentes desenganados pelos médicos recuperavam a saúde nas mãos do escravo. Não havia doença para a qual não tivesse ele os seus prontos e eficazes remédios. Nó nas tripas, espinhela caída, mal de vento, tudo; tudo isso ele curava em um abrir e fechar de olhos! Porém sua especialidade, que lhe granjeava notória fama, era a cura de envenenamentos! Fosse lá o envenenamento que fosse, por qualquer intoxicação, ou por picada de cobra, aranha ou outro bicho peçonhento qualquer, ministrando ele ao paciente certas beberagens acompanhadas de palavras cabalísticas, ficava, em um instante, o envenenado, livre de perigo e pronto para outro envenenamento.


Debalde procuravam os senhores médicos descobrir os segredos dessas curas maravilhosas, por mais que procurassem agradar esse escravo, prometendo-lhe até recompensas, não lhes contava ele o seu segredo, e continuava a assombrar a ciência médica destas paragens com as suas curas, chegando até, por assim dizer, a “ressuscitar cadáveres”, ou seja, a dar vida e saúde aos que os médicos já davam por liquidados!


Tanta era a fama desse africano curandeiro — também conhecido como Dr. Bulcão —, tão eficazes eram os seus remédios contra envenenamentos, que os senhores deputados provinciais, ao elaborarem e aprovarem o orçamento das despesas da Província de São Paulo no ano de 1854, determinaram o seguinte: “O Governo Provincial procurará obter o segredo da cura de venenos que se diz possuir o africano escravo de Cândido José da Motta, da Vila de Porto Feliz, fazendo as necessárias indagações sobre a veracidade dos boatos a respeito dos curativos feitos pelo dito escravo em pessoas envenenadas, pelo que é autorizado a despender até 2:000$000 (dois contos de réis)”.


Ao redigir seu artigo o historiador Francisco Nardy Filho diz que não sabia o resultado dessas indagações e pesquisas. Mas afirma que, por certo, o senhor Presidente da Província, em sua fala por ocasião da abertura da Assembleia em 1855, havia de, na parte referente à saúde pública, dar alguns informes a respeito. Porém, no distante rincão bandeirante onde se encontrava, Francisco Nardy Filho não tinha às mãos os Anais da Assembleia para fazer essa verificação. Dois contos de réis, por aquele tempo, era dinheiro grosso! Conta o historiador que com essa quantia poderia o escravo africano comprar sua carta de alforria e lhe restar ainda bons cobres para adquirir uma casinha e umas terrinhas. Complementa, entretanto, o historiador, afirmando suas dúvidas, pois o escravo africano que sempre se negara a atender aos pedidos e promessas dos senhores médicos, certamente não estaria disposto a contar para quem quer que fosse esse seu segredo.


Encerrando sua crônica Francisco Nardy Filho afirma duvidar que Cândido José da Motta estivesse disposto a se desfazer desse seu escravo boticário, que com suas espantosas curas era para a Vila de Porto Feliz uma verdadeira mina de ouro.


Oh linda Terra de Araritaguaba / Das noites enluaradas / A reviver nas bandeiras / As tuas glórias passadas!


Reinaldo Crocco Júnior é advogado, escritor, pesquisador e colaborador da TRIBUNA

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