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Abolicionistas de Porto Feliz


Na última edição da TRIBUNA, no dia 3 de maio, o dr. Reinaldo Crocco Júnior brindou os leitores com um texto sobre o padre Francisco Gonçalves Barroso, educador e abolicionista, que viveu em Porto Feliz durante os anos de 1863 a 1873. Figura notável, de acordo com o artigo citado, o padre Francisco Barroso envidou “seus esforços para a implantação de uma Instituição de Ensino especialmente destinada à orientação da população de escravos libertos”, tendo, também, assinado “o batismo e a liberdade de mais de quatro centos escravos”.


Encontramos no jornal sorocabano O Americano, de 1872, uma propaganda do Collégio Nossa Senhora Mãi dos Homens, dirigido pelo padre Francisco Gonçalves Barrozo (assim estava grafado), em que se prometia que os estudantes aprenderiam a ler, escrever, fazer contas e estariam aptos a concorrer a uma vaga em quais quer Faculdades do Império.


Por meio de contrato especial, o colégio oferecia também aulas de dança, música e desenho, uma inovação para a época.


O memorialista Francisco Martins dos Santos, no livro História de Santos – 1532 – 1936, publicado no ano de 1937, relaciona o nome de Francisco Gonçalves Barroso como um dos precursores do abolicionismo no litoral santista, ao lado de figuras como Antônio Bento, Luiz Gama e o próprio autor do livro. E, talvez, tenha sido esse o motivo de uma pequena confusão que ora, creio, se elucida.


O eminente memorialista e historiador Romeu Castelucci, em uma de suas anotações que pertence (espero que ainda pertença) ao acervo do Museu Histórico e Pedagógico das Monções, disse que um casal de professores, Eliza e Francisco Matoso, mantinham uma escola na cidade e que “enquanto ela lecionava, o seu marido, abolicionista, encarregava-se de desencabeçar os escravos contra as ordens dos senhores, e por seu intermédio eram enviados ao célebre Quilombo de Cubatão, no litoral”.


Ocorre que, pesquisando sobre a história da cidade, identifiquei como sendo Joaquim Antônio Mattoso Ferraz o professor e delegado de polícia, casado com a também professora Benedita Adelaide Mattoso Ferraz, quem auxiliava os escravizados a fugirem do cativeiro e serem encaminhados para o Quilombo do Jabaquara, no Cubatão. Essa denúncia, aliás, custou caro ao delegado que foi expulso da cidade, ameaçado por uma turba formada por 80 fazendeiros que o ameaçaram de morte.


É possível, então, que em suas anotações Romeu Castelucci tivesse associado duas histórias de abolicionistas da cidade: Francisco Gonçalves Barroso e Joaquim Antônio Mattoso Ferraz? Pode ser. Daí o surgimento de “Francisco Matoso”, nas anotações do historiador.


Não poderia ser o padre, pois este, ao que consta, não residia mais em Porto Feliz quando o Quilombo do Jabaquara surgiu. E, também, na qualidade de sacerdote da Igreja Católica não poderia ser casado com uma professora.


O importante é que figuras como Francisco Gonçalves Bar roso e Joaquim Antônio Mattoso Ferraz sejam lembradas nesse exercício que se faz de produzir uma memória histórica da nossa cidade.


Carlos Carvalho Cavalheiro é professor, mestre em educação, escritor, pesquisador e colaborador da TRIBUNA

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